Maestro
Tertuliano Ferreira dos Santos
Tertuliano
Ferreira Santos, conhecido como Professor Santos, nasceu
em 27 de abril de 1898, na cidade de Feira de Santana, estado
da Bahia, filho de Mariano José dos Santos e Etelvina
Ferreira Santos.
Iniciou sua carreira na arte musical aos 13 anos, ingressando
na banda de música Filarmônica Vitória,
sob a batuta do maestro Antônio Aurélio, quando
se destacou como exímio pistonista.
Aos 18 anos de idade passou a reger a referida banda em
substituição ao seu professor que se afastara
por motivo de saúde. Regeu a Filarmônica Vitória
durante 40 anos, passando depois para a Filarmônica
25 de Março, onde permaneceu mais 12 anos, quando
se aposentou.
Tertuliano Santos, independente de ser maestro, era também
professor de música, ensinava e tocava vários
instrumentos musicais, tendo preparado grande parte da população
musicista desta cidade: senhoras, rapazes e crianças.
Dentro de sua carreira artistica, dedicou-se intensivamente
à composição musical, deixando centenas
de músicas: fantasias, dobrados, valsas, missas,
novenas, marchas fúnebres, sambas e marchas carnavalescas,
peças para banda de música, músicas
sacras, boleros, suítes. Merecem especial destaque:
Fantasias, Ibutirama, Oásis, A Flor, Céu Azul
etc. Marchas: Núpcias, Ressurreição,
Mater Dolorosa, Senhora Santana, Lícia Maria, Eliana,
etc. Dobrados: Getúlio Vargas, Ruy Barbosa, etc.
Suas composições são tocadas pelas
bandas locais, da Capital, do Interior e outros Estados
do Brasil.
Ao Professor Santos coube a iniciativa de criar o 1º
Jazz de Feira de Santana que sob a sua direção
fez grande sucesso na época, se apresentando no Cine
Santana, o jazz chamava-se "Tangará".
Como excelente musicista foi orientador de Georgina Erisman
no início de sua carreira como compositora.
Tertuliano Ferreira Santos, faleceu em 10 de agosto de 1968,
em conseqüência de um distúrbio circulatório.
Maestro
Estevam Pedreira de Moura
Estevam
Moura nasceu no dia 3 de agosto de 1907 no arraial de Santo
Estevão do Jacuipe, hoje município de Santo
Estevão. Era o quarto dos cinco filhos do comerciante
João Pedreira Moura e Maria Minervina Carvalho Moura
(Dona Vida), que exercia o ofício de costureira,
do qual retirava o sustento dos filhos que criou com dignidade,
pois o seu esposo faleceu quando Estevam tinha apenas três
anos de idade.
Desde os primeiros anos Estevam já exibia sinais
daquela que seria a sua grande vocação, a
música. Era comum vê-lo tocando flautas feitas
de galhos de mamoeiro e, mais tarde, descobriu que um tosco
instrumento de origem indígena, fabricado com barro
cozido, a flauta ocarina, comumente vendido nas feiras-livres
de sua cidade, poderia extrair um som melodioso. Não
sabia ele, naquela época, que um dia algum músico
criativo e talentoso viria a compor peças musicais
com este instrumento. Mas foi com estes mesmos instrumentos
que Estevam já mostrava talento e inclinação
para a música e, com eles, acompanhava os animados
desfiles dos zabumdeiros pelas ruas. Aos sete anos ingressou
na escola pública local onde se destacou como um
dos melhores alunos da classe. Ao perceber a sua forte inclinação
para a carreira musical, aliada a uma inegável inteligência
e sensibilidade, a sua professora, Dona Francisca Simões,
obteve de sua mãe o consentimento para colocá-lo
na Filarmônica 26 de dezembro que estava em formação
e da qual ele veio posteriormente a ser o Regente, quando
então ele compôs sua primeira obra: "Dobrado
para Alício Cerqueira". É bom se ressaltar,
que era comum entre os compositores de peças musicais
para filarmônicas, e Estevam não fugia a esta
regra, homenagear pessoas com seus nomes intitulando estas
composições.
Aos 18 anos Estevam deixava a sua terra natal transferindo-se
para a então florescente vila de Bonfim de Feira,
convidado pelo Sr. Godofredo Leite, influente pecuarista
da região, para reger a Filarmônica Minerva.
Lá ele tentaria obter o seu sustento com a música,
o que não era nada fácil.
Em Bonfim de Feira o maestro viveu durante sete anos entremeados
de bons e maus momentos. Ali ele fez várias composições,
dentre elas o dobrado "VERDE E BRANCO", numa fase
de grande inspiração e de decepções,
pois foi obrigado a vender várias composições
a fim de sobreviver. É possível, portanto,
se reconhecer o inconfundível estilo de Estevam em
composições que levam o nome de outro que
não ele. Foi também no Bonfim que ele conheceu
e se apaixonou pela bela Regina Bastos de Carvalho, filha
de tradicional família local e que viria a ser a
sua grande inspiração. O romance foi bastante
tumultuado e digno de texto de folhetim. Os pais e indignados
irmãos de Regina jamais admitiriam que esta se unisse
a um músico pobre e mulato. Daí vieram então
ameaças veladas e explícitas. Diante, entretanto,
da residência deste casal que não desistia
e insistia neste romance, a radicalização
de atitudes se configurou num exílio forçado
de Regina que foi enviada temporariamente para uma fazenda
de cacau no sul da Bahia, que pertencia a um parente, na
esperança de que, com o tempo, esta viesse a se curar
deste indesejado amor. Em vão. No seu retorno Regina
caiu nos braços de Estevam e tudo se reiniciou. Daí
a situação se tornou mais tensa e as ameaças
mais freqüentes. Estevam foi mantido quase em prisão
domiciliar e antes que os fatos viessem a ter um desfecho
trágico, um seu decidido e corajoso amigo, de Santo
Estevão, o resgatou levando-o de volta a esta cidade.
Um dia, após prévio acerto e na calada da
noite, Regina fugiu com o seu amado que veio buscá-la
montado a cavalo e levou-a para a fazenda de um outro amigo
que os acobertou das perseguições que se seguiram.
Este arroubo custou caro a Regina que ao final foi deserdada
pela família. Casaram-se em Santo Estevão
em 1931 e no ano seguinte nasceu a sua primeira filha, Olga,
justamente numa época de grandes dificuldades para
toda região que foi assolada pela terrível
sêca de 1932. O campo de trabalho para o artista deixou
de existir e Estevam, pela segunda e última vez deixou
sua terra, desta feita sobrecarregado pelos encargos de
família. Foi reger a banda de Afonso Pena, hoje município
de Conceição do Almeida, cidade localizada
numa das poucas zonas poupadas pelo rigor da estiagem, de
onde se transferiu definitivamente para Feira de Santana.
Estevam Moura era um homem de finas maneira, culto, de fino
trato e sensibilidade. Fazia questão de estar sempre
impecavelmente bem vestido e elegante, notadamente quando
regia a banda envergando vistosos uniformes. Exigia dos
componentes a conservação do fardamento e
do instrumental bem como a ordem e elegância nos desfiles,
antes dos quais fazia rigorosa revista.
Ele tocava todos os instrumentos de sopro, embora tivesse
predileção pela flauta. Em pouco tempo solidificou
amizades com as pessoas mais influentes da região
tornando-se popular e conceituado. Exerceu, enquanto aqui
viveu, a regência da filarmônica "25 de
março". Foi professor de Música e Canto
Orfeônico no Colégio Santanópolis e,
fato curioso, dedicou-se ao fabrico de palhetas para instrumentos
musicais, feitas de bambu, numa época em que o metal
estava muito escasso por ocasião da II Grande Guerra
Mundial. Estas palhetas, de meticulosa fabricação
artesanal, tiveram grande aceitação, muitas
das quais foram exportadas para os EUA, e, auxiliado pela
sua filha Olga, tentava a custo de muitas horas de sono,
atender aos pedidos que vinham de todo país.
Embora dominasse os instrumentos de sopro, Estevam não
escondia o desejo de aprender piano. Foi exatamente uma
coincidência feliz que lhe proporcionou a realização
daquele sonho. Regente da 25 de Março, ele foi residir
na antiga rua Direita, hoje formalmente conhecida como rua
Conselheiro Franco. Em frente à sede da Filarmônica
Vitória, exatamente ao lado de sua casa, morava a
não menos talentosa Georgina Erisman, compositora
e pianista, autora do hino à Feira de Santana, da
qual Estevam tornou-se grande amigo e aluno, chegando a
com ela compor em parceria. Esta foi uma oportunidade de
ampliar seus conhecimentos musicais e sua cultura geral,
embora, como autodidata, já possuía o maestro
vasto cabedal de conhecimentos, graças ao seu gosto
pela boa leitura.
A primeira composição de Estevam Moura, de
que se tem conhecimento, foi o "Dobrado para Alício
Cerqueira", cujo título demonstra o carinho
do maestro para com os seus amigos, comportamento esse que
jamais se alterou durante toda a sua existência, pois
Feira de Santana ele viria a dedicar outras composições
a pessoas de sua amizade, a exemplo das peças: "Dobrado
Arnold Silva", "Dobrado Irene Silva", este
último em homenagem à esposa do seu amigo
Joaltino Silva, além de "Tusca", esta talvez
a sua mais complexa e elaborada composição,
O dobrado "Tusca" foi dedicado ao seu filho, que
tinha este apelido e se chamava Ernani, provavelmente uma
referencia ao compositor modernista Ernani Braga. A propósito
do Movimento Modernista, consta que Estevam durante muito
tempo trocou cartas com o grande compositor Heitor Villa-Lobos,
e, desta experiência, absorveu novos conhecimentos
musicais. Numa época de escassez de informações,
a Rádio Ministério da Educação
que ele ouvia diariamente, lhe trouxe subsídios dos
grandes compositores da música erudita para as suas
composições. Diante disso, pode-se afirmar
que Estevam foi um talento mal aproveitado. Pode-se confirmar
isto por uma excursão que a Banda 25 de Março
fez ao Rio de Janeiro, onde fez algumas apresentações,
quando então ele foi convidado a lá permanecer
e desenvolver a sua carreira musical. Mas os apelos de sua
família fizeram com que em Feira ele permanecesse.
Vale citar o fato de que em 1978, a TV Globo promoveu um
grande concurso musical de bandas filarmônicas, onde
a 25 de Março se destacou apresentando composições
de Estevam e que injustamente terminou em segundo lugar,
quando então maestros de grande renome, como Edino
Krieger, Marlos Nobre e Julio Medalha, que compunham a comissão
de julgamento, teceram rasgados elogios às composições
de Estevam, lamentando a sua morte precoce.
Outras composições famosas do maestro, além
das já mencionadas, foram as marchas "Constelação"
e "Magnata", e os dobrados "Presidente João
Almeida", "Allah" e "Vida e Morte".
Mas Estevam não se limitava a compor só marchas
e dobrados. Fez também música sacra como tedeums
e ave marias, fantasias, marchas carnavalescas e foxes como
"Reveillon", "Sonho Azul" e outras.
Compôs ainda o Hino do Congresso Eucarístico.
Sabendo que não poderia sobreviver apenas da música,
Estevam foi também funcionário da Guarda Municipal.
Estevam viveu muitas alegrias, festejado como artista e
respeitado como cidadão. Faleceu muito cedo, em 1951,
aos quarenta e três anos de idade, vítima de
um tumor no estômago. No leito, sentindo a proximidade
da morte, ele compôs o seu ultimo dobrado, "O
Final".
Fonte:
Fundação Senhor dos Passos, Fundação
Egberto Costa e Núcleo de Preservação
da Memória Feirense.