Em 1951 era Prefeito de Feira de Santana o Prof. Almáchio
Alves Boaventura, em quem o povo havia depositado grandes
esperanças na eleição do ano anterior.
Nesta mesma época, quatro nordestinos vindos do Rio
Grande do Norte, trazendo consigo três "marinetes",
aportaram em nosso município, no desejo de conseguirem
permissão da prefeitura municipal, para colocarem
as mesmas para prestarem o serviço de transporte
coletivo na cidade.
Dirigiram-se à prefeitura e pediram
uma audiência ao Prefeito. Após demorada conversa
com o Prefeito Prof. Almáchio Alves Boaventura, o
mesmo autorizou que eles realizassem suas intenções,
contanto que prestassem um bom serviço à comunidade.
Isto ocorreu no dia 21 de junho de 1951 e no dia seguinte,
já trafegavam pelos bairros Sobradinho até
a Pampalona, Ponto Central via Rua Quintino Bocaiúva
(antiga Rua do Fogo), Brasília via Rua Senador Quintino,
Rua Pedro Suzarte e Cristóvão Barreto (antigo
Pilão). Passados alguns meses, os referidos senhores
que se chamavam Otávio, Buriti, Manoel e Pedro voltaram
ao Prefeito para comunicar-lhe a desistência, pois
não conseguiam passageiros suficientes, para pelo
menos cobrirem as despesas, e os prejuízos já
eram grandes.
O prefeito Almáchio, após refletir com eles,
propôs o seguinte: A prefeitura patrocinaria o combustível
pelo prazo de um ano, enquanto eles conseguissem se manter
nas linhas. Eles concordaram e assim foi feito.
Após dois anos prestando este serviço, os
mesmos venderam as velhas "marinetes" ao casal
Antoninho e Dona Zizi Mascarenhas sua esposa. Algum tempo
depois, como este casal não tinham concessão
da prefeitura e não recolhiam impostos regularmente,
foram obrigados a vende-las, pois o prejuízo acumulado
também já não viabilizava o negócio.
Assim, a cidade voltava a não possuir mais o serviço
de transporte coletivo, e se percebia claramente a grande
dificuldade que os estudantes, comerciários, donas
de casa, operários e o povo em geral encontravam
para locomover-se para os lares, escolas, comércio,
etc.
Desta vez, em 1962, José Ferreira Pinto (Zé
Pinto), que já sonhava colocar um serviço
de transporte coletivo decente em Feira de Santana e percebendo
aquele momento de grande carência, reuniu-se com seu
irmão Júlio Ferreira Pinto, seu primo Romeu
de Alcântara Pinto e o conselheiro da família,
seu tio Petronillo Ferreira Pinto, mais conhecido como Sinhô
Pinto para amadurecerem a idéia sobre a implantação
deste serviço. Grandes foram as dificuldades, críticas
destrutivas e falta de incentivo não faltavam, porém
o amor à causa era muito maior.
Para tanto, foram ao então Prefeito Arnold Ferreira
da Silva, com um ofício, no qual solicitavam a concessão
para explorar o serviço de transporte coletivo em
Feira de Santana através de veículos Kombi.
O prefeito Arnold Silva os recebeu com muita gentileza em
seu gabinete e como conhecia toda a família Pinto,
bem como acreditou na importância do projeto, não
hesitou em enviar à Câmara de Vereadores Projeto
de Lei, a fim de que, após apreciada pelos Edis,
ele pudesse dar seu parecer.
Dias depois, chegava à Câmara o referido projeto,
o qual, recebeu de pronto parecer favorável da comissão,
que teve como Relator o Vereador Hugo Navarro da Silva,
sendo aprovado por unanimidade, tendo recebido elogios de
todos os Vereadores presentes, por se tratar da primeira
empresa do gênero no nordeste.
Sancionada a Lei pelo Prefeito Arnold Silva e publicada
nos jornais, aí foi que, realmente os idealistas
tiveram condições de iniciar a compra dos
13 (treze) primeiros veículos Kombi, na antiga concessionária
Volkswagem denominada Feira Motor Ltda., de propriedade
dos senhores Willie Azevedo, Raimundo Esquivel e Luiz Azevedo
Filho, os quais confiados na palavra dos compradores financiaram
metade do valor das mesmas. A empresa já estava registrada
sob a denominação "Expresso Alvorada"
e alguns meses depois foram adquiridos mais 15 (quinze)
veículos Kombis de cinco portas, totalizando a frota
em 28 (vinte e oito) veículos.
No dia 19 de outubro de 1962, às 10 horas, realizou-se
a inauguração com Missa Solene na Catedral
Matriz, celebrada pelo Primeiro Bispo de Feira de Santana,
Dom Jackson Berenger Prado, Monsenhor Aderbal Saback de
Miranda e Monsenhor Mario Bahiense Pessoa da Silva, Capelão
do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, todos de saudosa memória.
Após a Missa Solene, realizou-se a benção
dos veículos, motoristas, cobradores e proprietários;
todos fardados e com gravatas, tendo ao final da mesma,
saído em passeata pelas ruas da cidade, aplaudidos
pela comunidade e seguidos pelo carro da Rádio Sociedade
de Feira de Santana, o qual, através de Amadeu Pitanga
de Jesus ao volante e Francisco Almeida o popular Chico
Caipira, locutor, anunciavam entusiasticamente aquela efeméride.
Nada havia sido feito antes que se comparasse ao que Feira
de Santana assistia naquele momento, vindo de uma família
da terra, humilde, e que concretizava naquele momento o
sonho de contribuir efetivamente para o progesso de Feira
de Santana.
Na Rua Desembargador Filinto Bastos (antiga Rua de Aurora),
em frente à Praça 2 de Julho, estava a sede
da Rádio Sociedade de Feira de Santana, onde seu
Diretor Presidente Frei Hermenegildo de Castorano e o Diretor
Comercial Prof. José Manuel de Araújo Freitas,
convidaram todos os participantes a tomarem assento no auditório
e José Araújo Freitas prestou linda homenagem
falando em nome da rádio: "Feira ganha no dia
de hoje, algo muito importante e só o amor destes
feirenses da família Pinto, poderia nos oferecer
tamanho presente".
Em nome da empresa, o seu Diretor Presidente José
Ferreira Pinto agradeceu as homenagens afirmando: "Estamos
plantando uma grande semente, esperamos que as bênçãos
de Deus multipliquem nossa ação e que os frutos
que vierem sejam benéficos para o povo, o município
de Feira de Santana e toda a Bahia".
Após o desfile, a Volkswagem do Brasil ofereceu através
da Feira Motor Ltda. Um coquetel às autoridades,
imprensa falada e escrita, funcionários e tantos
quantos se fizeram presentes.
Com o passar do tempo foram surgindo outras empresas, dentre
elas o Expresso São Cristóvão também
em veículos Kombi.
Posteriormente, José Ferreira Pinto e sócios,
compraram no Rio de Janeiro 21 (vinte e um) micro-ônibus,
as famosas "bicudinhas" e 01 (um) ônibus
grande semi-novos, os quais estavam saindo de linha do Estado
da Guanabara, pois o Governador Carlos Lacerda estava substituindo-os
por uma frota zero quilômetro. E como se tratavam
de veículos bons, compramos e trouxemos para Feira
de Santana, para servirmos à população.
Aí foi outra festa!
Após registrados, receberam o batismo com o nome
de "TRANSLAR" Transportes para o Lar Ltda. E foram
colocados nos roteiros mais necessitados. Isto aconteceu
em 1965.
Posteriormente, outro irmão Joviniano Ferreira Pinto
Neto, mais conhecido por "Venú Pinto" ,
entrou na sociedade e adquiriu 15 (quinze) ônibus,
colocando-os nas linhas de Campo Limpo, Cidade Nova e Mangabeira.
Com este advento, outras pessoas passaram também
a colocar Kombis, Ônibus e Marinetes, criando um clima
de mal estar e uma competição desleal, visto
que, para a época, a oferta estava bem maior que
o número de usuários, inviabilizando pouco
a pouco o negócio. Assim, os sócios resolveram
vender todo o patrimônio da empresa. Sendo que, parte
dela foi vendida para a Sra. Dona Ivone Falcão Vieira,
a qual mudou o nome de Translar para Transul e os Senhores
Nezinho Oliveira e Carlos Lacerda o segundo prefeito na
época do município de São Gonçalo
dos Campos, os quais denominaram sua empresa de Oliveira
Lacerda, com sede no bairro do Tomba.
Com o passar do tempo, Zeca Marques criou a empresa Autounida.
Oswaldo Santos de Jesus, o popular "Vavá de
Manoel de Milha" criou a empresa Safira. Dona Valdelice
adquiriu ônibus e abriu sua empresa no bairro da Queimadinha
denominada Autocel. O Sr. Raimundo Souza Silva, ex-prefeito
de Milagres, implantou também em Feira de Santana
a empresa R. S. Silva. O Sr. José de Paula Maciel
Filho e Sérgio Augusto de Almeida, ambos de Minas
Gerais, adquiriram a empresa Transul e foram adquirindo
as outras posteriormente, tendo vendido ao Srs. Gilson Almeida
Rodrigues e Dílson Almeida Rodrigues.
Após 43 anos que fundamos o transporte coletivo em
Feira de Santana, a cidade e toda a região cresce,
demonstrando que a semente de amor e de um ideal plantados
naquela época, cresceram e têm dado bons frutos.
Hoje, 19 de outubro de 2005, faltando apenas 8 dias para
o Prefeito José Ronaldo de Carvalho inaugurar o novo
Sistema Integrado de Transporte Coletivo de Feira de Santana,
orgulhosos e felizes, sentimos que da mesma maneira que
acreditamos naquela época em uma cidade mais humana
e moderna, ele também sonha e acredita num futuro
melhor. E para isto precisamos acreditar, ousar, passar
pelos obstáculos para concretizarmos todos os sonhos
que sirvam para construir um futuro melhor para todos.
Nós, só temos que agradecer a Deus e parabenizar
nossa querida terra, na pessoa de todos aqueles que tiveram
e têm uma visão de futuro, pensando sempre
em proporcionar dias melhores para todos aqueles que aqui
nasceram e os que, aqui chegando adotaram Feira de Santana,
como sua terra natal.
Fonte: José Ferreira Pinto
Obs: Documento escrito por José Ferreira Pinto, em
18 de outubro de 2005. Fundador da Primeira Empresa de Transporte
Coletivo de Feira de Santana.